A Excursão

O dia estava claro e fresco, uma brisa levantava alguns fios negros do meu cabelo que acariciavam meu pescoço. A parada de ônibus estava começando a ficar cheia de pessoas desconhecidas para mim, mas todos conversavam em pequenos grupos ao meu redor. Era meu primeiro dia de aula numa escola nova e não sabia o que esperar pois estava começando em Maio, no final do segundo semestre.

Ninguém reparou na menina estranha até que entramos no ônibus escolar e escolhemos nossos lugares. Duas meninas do lado oposto ao meu começaram a cochichar enquanto dois meninos de pele escura e cabelos encaracolados perguntaram-me rudemente quem eu era e o que estava fazendo ali. Já não gostei deles,“idiotas” pensei. Respondi friamente que meu nome era Keira Askel e que tinha acabado de me matricular na escola. Percebi que todos estavam prestando atenção ao nosso pequeno diálogo e tentei não ficar (muito) vermelha. Já era ruim o suficiente entrar numa escola nova no fim do último ano sem todos ficarem olhando para você como se fosse uma aberração.

Passei os olhos rapidamente pelo ônibus para ter uma ideia de quantas pessoas estavam no veículo. A minha parada era a última antes de chegar à escola, portanto esperava que já estivesse cheio, mas percebi que nós éramos os únicos ocupantes do carro e olhei para o motorista pelo espelho retrovisor, confusa. Ele devia ter uns 40 anos, branco, meio calvo e com uma barba por fazer. Seu tipo físico era forte e parecia ser alto, não parecia exatamente com a maioria dos motoristas de ônibus escolares por aí.

Para me distrair dos olhares inquisidores dos outros alunos, pesquei um livro dentro da minha bolsa e me pus a ler. O caminho até a escola supostamente era rápido pois estávamos na última parada, mas depois de ler cinco capítulos inteiros comecei a perceber que algo estava errado. Os outros passageiros estavam inquietos e conversando uns com os outros, ouvi fragmentos de conversa que diziam que já tínhamos passado da escola, que estávamos entrando no interior do estado e que perguntavam nervosamente o que estava acontecendo. Fechei o livro e tentei me controlar. “Nada de mal vai acontecer”, disse a mim mesma, “o motorista só tinha errado o caminho, ele provavelmente é novato.” Repeti para mim mesma esse mantra até que ele dobrou em uma pequena estradinha de terra batida, com capim crescendo onde as rodas dos carros não passavam. O garoto atrás de mim gritou para o motorista perguntando onde estávamos, mas o homem branco limitou-se a olhar rapidamente para trás pelo espelho retrovisor com seus frios olhos azuis.

Depois de termos andado por um tempo pela estrada esburacada, chegamos a um vale, onde uma enorme casa se erguia imponente com seus seis andares e suas paredes externas avermelhadas e telhado branco. A casa estava, estranhamente, rodeada por trilhos de trem enferrujados. Há muito tempo nenhum trem devia passar por lá, além disso a curva que o trilho fazia para dar a volta na construção parecia extremamente estreita e perigosa.

O motorista parou o ônibus na frente da casa, desligou o motor e demorou um tempo até se levantar e nos saudar, tudo isso num silêncio inquieto. O medo era quase palpável.

– Bom dia. Pelas suas caras percebo que não foram avisados pela escola que íamos fazer um pequeno passeio de campo – pelo canto do olho vi algumas cabeças balançarem-se negativamente – Pois bem, aqui estamos. Vamos passar uma semana aqui, para aprendermos os hábitos do interior, e quando voltarmos terão que apresentar um trabalho falando de tudo o que aprenderam.

– Se isso é mesmo verdade, onde está o professor responsável pelo passeio? Não pode nos levar para qualquer lugar sem supervisão – veio uma voz do fundo do ônibus.

– Ora – respondeu o homem – mas eu sou seu professor. Meu nome é Sr. Strickland, sou seu professor substituto de História, o Sr. Haynes precisou viajar para outro estado para resolver assuntos pessoais… Bom, se não temos mais perguntas, queiram, por gentileza, sair do ônibus e fazer uma fila na porta da casa.

Ouvi sussurros de pessoas que diziam que não tinham escolhido história como eletiva, mas todos estavam nervosos demais para fazer confusão e a fila estava formada em menos de cinco minutos. A tensão crescia quando o professor abriu a porta da casa revelando um hall de entrada pouco iluminado. A casa parecia estar completamente deserta, apesar de podermos ouvir a madeira rangendo em andares superiores esporadicamente, como se coisas muito leves se movimentassem tentando fazer o mínimo de barulho.

O Sr. Strickland levou-nos para o primeiro andar e colocou as meninas em um quarto à direita e os meninos no quarto do lado oposto e saiu, dando-nos a recomendação para descansarmos e depois descer para almoçar, além de dizer que os andares superiores estavam terminantemente proibidos. O quarto era grande o suficiente para 30 pessoas, com camas de ambos os lados da parede e uma grande janela na parede do fundo, mas as sete meninas ficaram todas amontoadas perto da porta e eu, mesmo não tendo nenhuma amizade, tive medo de ficar sozinha, portanto mantive-me por perto.

Enquanto tentava conseguir rede para o meu celular, ouvi uma das garotas comentando que isso nunca tinha acontecido antes. Outra garota chamada Beth disse que o dia de folga do último ano só acontecia no final do mês e que não existiam trotes da parte docente com a discente. Depois de tentar de todas as maneiras conseguir rede e falhar, desisti e fui jogar no celular até a hora de descer para comer. Minha bateria estava ficando fraca e procurei uma tomada pelo quarto por um tempo até achar uma embaixo de uma das camas mais afastadas da porta, mas, para meu desespero, a tomada não funcionava, não importava de que maneira eu tentasse colocar. A tomada estava quebrada.

Xinguei em frustração e sentei-me com raiva na cama, sob os olhares atentos das outras. Um momento desconfortável de silêncio passou até que uma menina baixa, loira e com muitas sardas perguntou-me o que havia de errado. Respondi que a única tomada do quarto não funcionava, as meninas entreolharam-se e uma delas, a que escolheu a cama mais perto da porta, disse que talvez pudesse recarregar em alguma tomada do corredor ou do quarto dos meninos. Ela tinha razão, mas quando atravessei o quarto e tentei abrir a porta ela estava trancada por fora. Trocamos um olhar de medo e vi algumas meninas começando a chorar perguntando-se o que estava acontecendo e se iam morrer.

A menina perto da porta manifestou-se de novo dizendo para mantermos a calma. Ela parecia ser a mais velha do grupo, com seus longos cabelos castanhos e ausência de maquiagem. Ela levantou-se e testou a porta só para ter o mesmo resultado que eu.

– Algo definitivamente está errado, História não é minha eletiva e nenhum professor pode simplesmente nos levar para um lugar sem a autorização prévia dos responsáveis, mesmo com a escola ciente – seu tom de voz solene e suas escolhas de palavras a faziam parecer muito mais velha do que aparentava – Mesmo assim, não podemos demonstrar que estamos com medo, seja lá o que for que está acontecendo temos que descobrir furtivamente, portanto ajam naturalmente. Falem de coisas triviais enquanto estivermos na presença dele para que não desconfie de nada.

Ela virou-se para mim e disse simplesmente:

– Meu nome é Victoria Biven, por sinal

Esbocei um sorriso e me apresentei novamente. Ainda estávamos em pé perto da porta quando ouvimos passos na escada e corremos o mais silenciosamente possível para nossas camas. A porta foi destrancada depois de ouvirmos vozes masculinas do outro lado e o Sr. Strickland colocou sua cabeça para dentro nos dando o mais caloroso dos sorrisos e nos dizendo para descermos pois o almoço estava pronto.

Enquanto nos dirigíamos à escada, o barulho de madeira rangendo sob nossas cabeças ficou mais perceptível, e várias pessoas levantaram o rosto, chamando a atenção do homem mais velho.

– A madeira dessa casa é velha, e o vento nessa parte do vale é forte e faz com que ela ranja, não há nada a temer – e continuou a descer as escadas.

No hall havia, pelo menos, cinco portas e apenas duas delas estavam abertas. Uma dava para a cozinha com pouca luz natural, mas amplamente iluminada por velas e a outra para uma sala vazia, exceto por uma estranha escultura em tamanho real, de um material semelhante a cerâmica, de um gato, cujos olhos eram extremamente reais e ligeiramente assustadores. Depois de perceber a primeira escultura, vi várias outras espalhadas pela casa. Pelo menos quatro no hall e duas na cozinha, guardando a porta.

Sentei-me de frente a elas e comi silenciosamente enquanto encaravam-me com seus olhos amarelos e desafiadores. As meninas estavam agindo naturalmente como Victoria tinha pedido e isso descontraiu um pouco os meninos que estavam em menor número que nós e pareciam muito mais assustados e temerosos. Sr. Strickland passou a refeição falando sobre a história do lugar, e vários outros fatos interessantes, mas no momento estava mais preocupada em analisá-lo.

Ele era canhoto, tinha uma longa cicatriz do lado esquerdo do rosto, que não tinha prestado atenção antes por ser quase imperceptível dependendo de como a luz batia. Tinha um levíssimo sotaque europeu e dividia a comida no prato em partes perfeitamente iguais, comendo sempre na mesma ordem: carne, arroz, verduras, carne, arroz, verduras, e sempre a mesma porção de cada. Sua personalidade metódica também era perceptível pelo seu vestuário, todo engomado, com a blusa branca social por dentro da calça e duas canetas no bolso da frente.

Quando acabamos de comer ele nos disse para explorarmos um pouco o terreno, sem nos afastarmos muito para não nos perdemos na floresta por trás da casa. Saí ao lado de Victoria e contei o que tinha observado na casa e no comportamento dele. Ela disse que não tinha visto as esculturas, mas prestaria atenção da próxima vez.

Não existia nada para se fazer naquele lugar isolado. Se aquilo tinha algum propósito educacional verdadeiro escolheram o pior local para isso. Atrás da casa havia um pequeno celeiro com duas vacas e um cavalo magro, alguns patos passeavam pela propriedade e ferramentas para arar e cuidar da terra estavam espalhadas pelo chão com descuido. Depois de olhar tudo, e tentar entrar na casa mas ser enxotada imediatamente pelo professor, decidi deitar-me na relva aparada na frente da casa.

O lugar era muito bonito e a casa também, não fosse pelas janelas sujas e algumas pedras lascadas pelo tempo na fachada. Meu olhar vagou pela casa até perceber um movimento rápido na janela do quarto andar, como se alguém estivesse passando correndo. Fiquei tensa e sentei-me, observando com mais atenção todas as janelas, mas depois de um bom tempo sem nada acontecer deitei-me de novo pensando que estava imaginando coisas.

Minha mente divagou para casa e percebi que estava com saudades. Meus pais tinham se separado e decidi morar com minha mãe porque ela resolveu mudar de estado, e eu precisava de uma mudança de ambiente; mas, ao mesmo tempo, sentia muita saudade do meu pai, e como costumava ficar acordada até tarde assistindo filme, esperando-o voltar do trabalho. Mal sabíamos nós que o trabalho dele chamava-se Eliza Ferris, minha madrasta imbecil e dissimulada.

Acordei dos meus pensamentos quando uma pessoa sentou-se pesadamente ao meu lado, virei o rosto e deparei com um menino que não tinha prestado muita atenção antes. Ele era alto e magro, seus cabelos lisos e loiros escorriam pelo rosto com espinhas e uma leve penugem cobria seu lábio superior.

– Meu nome é Matt, Matt Avery. Qual seu nome mesmo? Kie…

– Keira – respondi com um sorriso – eu sei que é estranho.

– É um nome legal, combina com você… Então, por que você entrou na escola faltando tão pouco tempo pra gente se formar?

– Mm, problemas pessoais – respondi simplesmente, não queria estranhos sabendo muito da minha vida, muito menos na situação em que nos encontrávamos.

– Entendi. Você gosta de…

Matt foi interrompido por Victoria, que sentou-se a minha frente e sussurrou para nós dois:

– Tentei entrar na casa pela porta dos fundos, mas estava trancada. Quando olhei pra cima vi uma pessoa me olhando da janela do terceiro andar, ela se escondeu muito rápido, mas deu pra ver que era muito magra e baixa, parecia uma criança. Será que Sr. Strickland é um pedófilo que sequestra crianças e adolescentes para vender? – o tom de voz dela sugeria pavor.

– Quando estávamos no quarto, ouvi passadas pesadas no andar superior e como se alguma coisa estivesse sendo arrastada… Vocês perceberam que não temos energia e que os quartos estavam trancados? – Matt perguntou, balançamos a cabeça e eu adicionei:

– Também vi um vulto no quarto andar enquanto estava deitada aqui e aquelas esculturas de gatos me deixam desconfortável, às vezes imaginei que seus olhos estavam piscando, como se estivessem vivos.

– Temos que arrumar um jeito de sair daqui antes que o Sr. Strickland resolva dizer o que ele realmente é, nada de bom vai vir dessa revelação, garanto – Victoria disse.

Nesse mesmo instante ouvimos a voz do suposto professor nos mandando entrar pois já estava escurecendo. Quando entramos na casa dei um ligeiro empurrão em Victoria e apontei discretamente para a escultura na sala vazia. No crepúsculo, seus olhos pareciam brilhar. Ela aquiesceu rapidamente e subimos para esperar o jantar.

Parecia que para o Sr. Strickland nossa vida era comer e fazer nada. Quando fomos trancadas de novo no quarto, Victoria dividiu nossas suspeitas com o resto das meninas, depois ouvimos os relatos das outras que eram muito parecidos com os nossos. Enquanto elas conversavam, fui até a janela e tentei abrir, mas estava trancada. Depois tive uma ideia. O teto do quarto era baixo, se subisse em cima de uma cama conseguiria alcançá-lo sem dificuldade. As outras meninas me olhavam com curiosidade e Victoria começava a formular uma frase quando eu dei três batidas na madeira do teto. Seguiu-se um silêncio que pareceu durar anos e então três batidas ressoaram de volta. Ficamos paradas, assustadas e sem saber como reagir. Depois de um tempo mais três batidas foram ouvidas e respondi com uma.

O quarto estava em silêncio portanto consegui ouvir a voz, mesmo estando muito baixa e longe:

– Vocês vieram nos salvar? – Parecia a voz de uma criança, não podia ter mais de 10 anos e era uma menina.

Respondi no mesmo volume:

– Salvar você de quê?

– Do homem malvado – ela respondeu imediatamente – Ele levou Charlie, Julie e Emily, só sobramos eu e Sam… Charlie, Julie e Emily nunca mais voltaram… Já faz tanto tempo… Estou com medo…

E depois do nosso silêncio ela repetiu:

– Vocês vieram nos salvar?

Entreolhamo-nos e eu respondi:

– Não vamos embora sem vocês.

A menina não falou mais e ouvimos passos suaves na madeira, afastando-se. Sentei-me na minha cama em silêncio e logo em seguida a porta abriu e o Sr. Strickland chamou-nos para o jantar, que decorreu normalmente, mesmo sendo possível ver que todos estavam com medo e desconfortáveis.

Quando subimos para dormir, resolvemos que não esperaríamos pra ver o que aconteceria e nos pusemos a bolar um plano. De manhã, quando o Sr. Strickland nos chamasse para tomar o café da manhã, uma de nós esconder-se-ia embaixo da cama e depois sairia para descobrir o que tinha nos andares superiores, e voltaria para esconder-se antes de todos voltarem para os quartos. Ninguém queria ser a voluntária, todas estavam assustadas demais, inclusive eu, mas engoli o medo e disse que faria. Como eu nunca falava durante as refeições ninguém nunca reparava em mim, a mesa era grande e tinha vários lugares vazios, com sorte ele não perceberia a ausência de uma pessoa.

Testamos a melhor cama para o esconderijo, onde ele não pudesse ver quando entrasse no quarto e ficou decidido que eu me esconderia na última cama do lado esquerdo. A noite foi inquieta, o sono era perturbado e acordei-me diversas vezes com pesadelos, só para voltar a dormir e ter sonhos ainda piores.

Quando a manhã finalmente chegou, todas já estávamos acordadas, à espera. Quando julgamos que já estava perto da hora de sermos chamadas, escondi-me debaixo da cama e torci para que desse tudo certo… E deu. Sr. Strickland chamou as meninas e não fez nenhuma pergunta, depois desceram para tomar o café, deixando a porta aberta.

Meu cabelo grudava-se ao suor do meu rosto quando eu subia as escadas silenciosamente e sem sapatos. Lembrei-me de que tinha uma presilha que lembrava um bico de pato de ferro afiado preso às calças e amarrei o cabelo em um coque alto na cabeça.

Havia uma fita isolando o patamar do segundo andar. Passei por baixo dela e dirigi-me ao quarto equivalente ao nosso, onde a menina provavelmente estava, mas a porta estava aberta e o quarto vazio, assim como o resto do segundo e terceiros andares. Quando cheguei no quarto andar pude ver um movimento vindo do fundo do corredor e fui até lá cautelosamente e com o coração na boca.

Abri a porta lentamente e vi um quarto apinhado de crianças, todas deitadas nas camas, mas todas de modos não naturais, como se suas articulações tivessem sido quebradas, e o cheiro que vinha do quarto era insuportável – cheiro de gente morta. A visão horrenda que tive tirou minha voz e afastei-me do quarto andando de costas até esbarrar em algo.

Meu corpo gelou. Quase não tive coragem de virar-me, mas quando o fiz vi uma garota. Devia ter uns 8 anos com uma camisola rosa esfarrapada e cabelos loiros sujos, ela me olhou com uma expressão vazia e me disse para ter cuidado antes de entrar no quarto dos mortos e fechar a porta. Tudo o que eu mais queria era sair dali, mas ainda faltavam dois andares, não podia desistir agora.

Subi as escadas já tremendo muito, não sabia mais o que podia encontrar. No quinto andar havia apenas uma porta de cada lado e apenas a da esquerda estava aberta. Respirei fundo e entrei. Havia vários objetos estranhos nas mesas que se encontravam encostadas nas paredes da esquerda. O quarto se estendia por toda a extensão da casa e havia várias… coisas penduradas, não fazia nem ideia do que era… Era como se fossem placas de ferro que seguravam tecidos moles que eram estranhamente semelhantes à… pele.

A realização me atingiu quando me dirigi mais para dentro da sala e percebi, horrorizada, uma coleção de estátuas de cerâmica em tamanho real de crianças e algumas de adolescentes e até adultos. Um pedestal giratório encontrava-se perto da outra parede com um enorme balde do que parecia ser argila e na extremidade do quarto havia um forno gigantesco para assar cerâmica.

Extremamente enojada e assustada, tentei correr para fora do quarto quando ouvi passos pesados subindo as escadas. Ele tinha percebido minha ausência. O quarto era escuro e a luz vinha de brechas nas madeiras que tapavam as janelas. Escondi-me o melhor que pude no canto mais escuro, com a presilha afiada nas mãos como uma arma. Ele entrou confiante no quarto, já sabia que eu estava lá, mas aparentava estar muito perturbado por esse fato.

Sua camisa estava amassada e por fora das calças, seu rosto estava suado e seus terríveis olhos azuis, selvagens e homicidas.

– Eu sei que você está aí… Keira – ele disse saboreando meu nome – Gostou do meu trabalho? Aposto que você ficará linda na minha coleção, talvez até a exponha. Esculturas ultrarrealistas em cerâmica de Bradley Strickland… Soa bem, não?

Ele passeava pelo quarto, acalmando a respiração, me procurando. Comecei a engatinhar prendendo a respiração até a porta, não estava tão longe, se ele continuasse fazendo barulho e procurando no lado de lá… Mas quando eu estava começando a levantar-me ele virou. Seus olhos brilharam ao mesmo tempo que senti meu rosto formar uma expressão de pânico involuntariamente.

Ele correu para onde eu estava, e eu corri para o lado oposto, afastando-me da porta e gritando de medo. Ouvi passos subindo a escada e alguém tentou quebrar uma cerâmica de gato em Strickland, mas este desviou, e, quando a cerâmica quebrou, vimos o corpo de um gato real esfolado cair de dentro do envoltório quebrado para o chão.

O menino loiro e com espinhas ficou horrorizado e em choque, e Strickland aproveitou para dar um murro em seu rosto que o deixou desacordado. Quando percebi que tinha perdido a chance para fugir, ele lembrou-se de mim e voltou à perseguição. Os outros alunos provavelmente tinham fugido, Matt tinha sido o único que voltou para me salvar.

Strickland avançou pelo lado direito das peles enquanto eu me esquivava e fugia pelo lado esquerdo, correndo pelas escadas e quase caindo. Ouvi os passos do europeu cada vez mais perto e quando já estava no patamar do térreo, tropecei nos meus próprios pés ao olhar para trás e caí.

Strickland, ao ver-me estatelada no chão, diminuiu o passo e abriu um sorriso de vitória. Levantei-me pesadamente e corri para fora da casa onde os outros estudantes esperavam juntos, alguns abraçados, outros chorando. A distância entre o homem e eu já era muito pequena e ele me agarrou pelo braço com uma mão enquanto estrangulava-me com a outra, levantando-me do chão.

Já conseguia ver pontos pretos na minha visão quando lembrei da presilha de ferro e a enfiei com toda a força que pude reunir em sua garganta. Strickland soltou-me, arquejando e caiu no chão, um dos meninos de pele escura apareceu com um pedaço de madeira e começou a espancar sua cabeça até ela virar nada mais que uma massa disforme.

Quando tudo acabou, abraçamo-nos e decidimos o que iríamos fazer. Falei que Matt ainda estava lá em cima desacordado e alguém lembrou que tínhamos que pegar nossas coisas nos quartos. Íamos fazer tudo o mais rápido possível, pois não queríamos mais passar nem um segundo a mais naquele lugar. Depois de pegar minha mochila, lembrei da menina e subi até o quarto das crianças mortas e chamei por ela, mas ela tinha sumido.

Estávamos no térreo. Matt era carregado por dois meninos quando abri a porta para deixar tudo o que tinha acontecido para trás… Mas a porta não abria, estava trancada. Entreolhamo-nos e ouvimos uma voz masculina falar da sala vazia e escura do hall:

– Então vocês são os garotos de Strickland? Vamos nos divertir um pouco.

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