O Labirinto

O telefone tocou na melhor parte do sonho, tateei em busca dele por um momento ainda de olhos fechados derrubando uma série de coisas. Quando o achei, falei com uma voz sonolenta:

– Alô?

– Tenho uma proposta para lhe fazer, você aceita? – Respondeu a voz do outro lado da linha. Não me pareceu nem um pouco familiar.

– Que tipo de proposta? Envolve dinheiro? – Disse, pensando nas minhas dívidas.

– Muito, mas só se você ganhar. – A voz falou com uma ponta de malícia.

– O que eu tenho que fazer? – Não fazia a mínima ideia do porque eu estava aceitando uma proposta de um completo estranho, mas se envolvesse dinheiro, eu estava dentro.

– Me encontre no terreno baldio da Rua dos Monges, amanhã, às 10 horas da manhã, e nós discutiremos os detalhes.

– Espere! – Gritei quando percebi que ele estava prestes a desligar – Como vou saber quem é você?

– Não se preocupe, será bem… Óbvio. – Ele respondeu e desligou logo em seguida.

* * *

O dia estava fresco e ensolarado quando estacionei o carro perto de um tapume de madeira de aproximadamente cinco metros, que dava a volta em toda a extensão do terreno. Procurei por alguma brecha por onde entrar e achei uma porta pintada de branco presa por uma corrente sem cadeado, retirei a corrente e entrei.

Surpreendi-me com o que estava vendo: um enorme labirinto se estendia por quase um quilômetro à minha frente, uma construção que eu nunca imaginaria encontrar num lugar como aquele. As paredes de arbusto se balançavam suavemente ao vento. Um pequeno grupo de pessoas estava de pé perto da sua entrada, caminhei até elas vacilante, não sabia onde estava me metendo.

***

Quando me aproximei do grupo fui saudada por um homem careca e gordo, de baixa estatura, ele sorriu para mim e fez um gesto que abrangia todos nós, os participantes.

– Então, o que temos que fazer para ganhar o dinheiro? – Fui direto ao ponto.

– Ora, ora, ora, temos aqui uma determinada, que ótimo – Ele falou com um sorriso – Para ganhar você tem que chegar ao centro do labirinto, é claro.

– Só isso? Fácil demais – Bufou uma loira ao meu lado.

– Você que pensa minha querida. Temos aqui quatro pessoas. Quatro pessoas totalmente diferentes: Uma inteligente – Disse ele apontando para mim – Que também se mostrou determinada. Uma bonita – Ele disse apontando para a loira. Tentei ignorar aquela indireta, pera aí, meu cabelo está bonito hoje! – Um forte – Ele falou olhando para o homem musculoso de cabelos negros ao lado da loira – E um necessitado – ele disse apontando para um mendigo.

– Vamos logo com isso – Reclamou o mendigo – quanto é o prêmio?

– Dez milhões de reais. Em dinheiro – Ele acenou para um homem franzino do seu lado que eu nem tinha notado. Ele se aproximou e abriu uma maleta preta cheia de dinheiro – Você a receberá assim que apertar o botão no centro do labirinto.

– Até parece que você daria dez milhões de reais só por entrar em um labirinto e apertar um botão idiota. Fala logo, o que tem ai dentro?

– Foi por isso que eu escolhi você senhorita…

– Rachel.

– Rachel, isso, bom, é por isso que nós lhe daremos direito a uma arma, escolham, mas só uma.

Ele nos mostrou um arsenal de armas de todos os tipos, desde bazucas a facas afiadíssimas. Agarrei uma espada prateada com o punhal de ouro incrustada com esmeraldas. Tá bom que eu não era exatamente boa com espadas, ou melhor, com arma nenhuma, mas me pareceu a melhor.

Você deve estar se perguntando “por que ela não pegou uma arma?” Porque balas acabam, espadas, não. E facas? Muito curtas, perigosas. Olhei para o lado e vi que o moreno pegou uma bazuca e duas balas reservas, a loira, uma espingarda e o mendigo tentava colocar duas .38 nos bolsos já segurando uma na mão.

Depois de todos escolhermos as armas, entramos na escuridão solitária do labirinto.

***

O labirinto tinha quatro entradas, uma para cada um de nós. Eu peguei a primeira entrada da direita e me embrenhei entre as plantas. Apesar de estar um calor de 32 graus Celsius lá fora, minha respiração se condensava à minha frente e mesmo que eu estivesse andando em linha reta, quando olhei para trás não pude ver mais por onde entrei. Era como se eu tivesse me trancado ali dentro e só sairia se apertasse o botão, o que era meu objetivo.

Já tinha andado por um bom tempo em frente quando o corredor onde eu estava fez uma virada brusca para a esquerda. Quando segui seu caminho um enorme leão dourado se prostrou a minha frente. Seus olhos tinham um brilho maligno e sua bocarra pingava sangue. Meu primeiro pensamento foi “como diabos eles conseguiram um leão?!”Olhei ao redor para ver o que ele tinha mordido quando meus olhos se depararam com uma mão dilacerada a uns poucos metros de distância. Seguindo o olhar naquela direção vi um corpo sem cabeça coberto de sangue. Voltei o olhar para o leão assassino e brandi a minha espada. Certo, vamos esclarecer as coisas: eu sou totalmente contra a agressão aos animais, exceto quando um leão gigantesco se prepara para me matar.

O que aconteceu a seguir foi tão rápido que mal tive tempo para pensar: o leão avançou em mim, me jogando no chão com seu peso descomunal. Ao mesmo tempo, enfiei minha espada até o punho em seu peito com toda a força que consegui reunir. O leão caiu sobre mim e um líquido morno empapou minha blusa branca. Ele estava morto.

***

Recuperei-me do choque quase imediatamente. Depois de muito esforço consegui empurrá-lo para longe de mim e limpei minha espada em seu pelo lustroso.

Saí cambaleando para longe dele tentando descobrir onde estava a cabeça daquele corpo. Depois de muitas curvas encontrei-a. A cabeça estava virada para baixo com todos os nervos e veias soltos, pingando sangue. Cutuquei-a com a espada e ela se virou mostrando as feições do mendigo em puro horror. Um calafrio desceu pela minha espinha, passei o mais longe possível da cabeça e segui em frente, afinal de contas, dez milhões de reais me esperava.

Meu caminho foi tranquilo por um bom tempo, até que um ruído metálico cortou o ar. Uma guilhotina gigante se abria e fechava à minha frente, pronta para me cortar em duas. Um farfalhar as minhas costas me fez virar e a loira apareceu, desengrenhada. Ela olhou para a guilhotina tentando raciocinar como passar por ela, dava quase para ouvir seu cérebro funcionando. Juntei-me a ela e comecei a raciocinar também.

A guilhotina estava presa por uma estrutura de metal retangular, ela se abria de cinco em cinco segundos, ou seja: impossível de se passar correndo. Mas, no canto direito, lá em cima, um mínimo botão vermelho brilhava. Uma pessoa nunca conseguiria alcançar o botão sozinha, mas uma pessoa em cima de outra, poderia.

Olhei para a loira e contei à ela meu plano. Ela pareceu meio hesitante e olhou para trás como se houvesse outro caminho, mas as paredes de arbusto pareciam ter se juntado, nos lacrando ali dentro. Ela olhou para mim e falou:

– Tudo bem, parece ser o único jeito, mas NÃO amasse meus cabelos!

Revirei meus olhos e me posicionei para subir em seus ombros. Depois de muitas tentativas fracassadas enrosquei minhas pernas ao redor do seu pescoço. Tentei alcançar o botão sentada, mas ele continuou tão longe quanto antes, então disse a ela que teria que ficar de pé. Ela fez uma careta de dor, mas concordou.

Agarrei a parede de plantas e comecei a me içar para cima, enquanto a loira resmungava embaixo de mim. Quando meus dedos estavam a um centímetro do botão, escorreguei nos cabelos dela e, sem querer, a empurrei para a frente enquanto batia no botão com o braço, ao mesmo tempo que me segurava na estrutura de metal. A guilhotina parou de se mexer e se abriu. Pulei lá de cima e caí em uma coisa meio mole e molhada. Quando percebi o que era me levantei de imediato.

Quando empurrei a loira, ela caiu na guilhotina e seu corpo foi cortado em dois. Eu estivera sentada em cima de suas pernas. Senti-me enjoada com aquela cena e meio culpada por ela estar morta, mas não podia parar. Só o moreno estava em meu caminho agora, isso se ele tivesse tido sorte.

***

Andei tanto que o céu começou a escurecer, já estava ficando sem esperança de encontrar o centro do labirinto quando um brilho avermelhado apareceu na minha frente: o botão. Corri para ele, mas meu caminho foi impedido por um vulto negro. Quando meus olhos reconheceram-no dei um passo para trás. O moreno olhava para mim com seus olhos azuis turvos e ferozes como se quisesse me cortar em pedaços por estar competindo com ele. Mas isso não durou muito, já que logo depois ele se virou, ignorando-me, e correu para o botão.

Corri atrás dele e já estava disposta a lutar até a morte quando uma coisa verde e viscosa se agarrou no seu pé e o puxou para baixo. Segui o olhar pela coisa e vi que a parede direita do labirinto se remexia e chicoteava. Ela estava viva.

Afastei-me daquela aberração enquanto o moreno era lentamente engolido pela planta. Seus ossos quebrando um por um. Eu queria ajudá-lo, mas ao mesmo tempo tinha medo de ser engolida também. Fiquei paralisada por um tempo, até que meu cérebro voltou a funcionar e disse-me para correr enquanto a planta estava distraída com ele.

Olhei uma última vez para o moreno e vi que ele dava coronhadas desesperadas com a sua arma na planta, mas ela nem se abalava. Virei-me e comecei a correr. Alguns tentáculos da planta tentaram me agarrar, mas meu cérebro mandava comandos involuntários para as minhas pernas, dizendo à elas para pular.

Corri tanto que mal podia respirar, até que cheguei a um enorme pedestal com pedras salientes onde, em cima, o botão vermelho se destacava. Nem pensei duas vezes antes de começar a escalar. Subi por um bom tempo e quando estava quase no topo, a pedra onde meu pé se apoiava soltou e caiu. Escorreguei alguns metros ralando meu joelho na pedra áspera. Senti o sangue fresco descendo pela minha perna, mas não desisti e continuei subindo. Até que finalmente cheguei ao topo e meus dedos apertaram o frio botão vermelho.

No instante em que os meus dedos deixaram a frieza hostil do botão, as pedras recolheram-se dentro do pedestal e dois holofotes com luzes cegantes iluminaram-me enquanto eu escorregava pela pedra hexagonal ralando ainda mais meus braços e pernas.

Cai no chão com um baque surdo e minha visão ficou turva. Quando pude me sentar novamente o homem careca e gordo me olhava com uma expressão de felicidade.

– Parabéns! Você ganhou! – Ele falou com seus olhinhos brilhando, e me entregou a mala preta com dez milhões de reais.

Olhei para a maleta e pensei que finalmente poderia abrir meu próprio escritório de advocacia.

* * *

Abri a porta do carro com um pouco de dificuldade, as pessoas que passavam na rua me olhavam com uma expressão confusa como se perguntassem por que eu estava tão suja de sangue.

Escondi a maleta embaixo do banco do passageiro e dei a partida no carro. Enquanto eu avançava rapidamente, olhei para o retrovisor e vi o labirinto se afastando. Já estava bem perto de casa quando um número desconhecido ligou para o meu celular. Atendi meio apreensiva:

– Alô?

– Rachel? Temos um problema – Reconheci a voz do careca que me fez a proposta dos dez milhões de reais.

– Que tipo de problema?

– Sua mãe. Ela descobriu que você estava no labirinto e agora ela está lá dentro. Você tem que fazer alguma coisa! – Ele disse com uma nota de desespero na voz.

– Por que você não faz alguma coisa? A ideia estúpida de construir um labirinto gigantesco com armadilhas mortais dentro foi sua. Tire ela de lá agora!

– Bom, se você não fizer ela provavelmente morrerá, porque eu não vou entrar. A mãe é sua, afinal…

Bufei, enquanto virava numa esquina, dirigindo-me ao labirinto novamente.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s